O desconhecido sempre moveu a curiosidade do homem quase na mesma medida em que induz o seu fascínio, e dentro desse horizonte inexplorado pelo conhecimento humano residem histórias e fábulas sobre monstros e quimeras, produtos da mitologia e das fábulas. Princípios outrora comuns na era das trevas da humanidade que a cada dia iam perdendo seu espaço para a luz dos avanços do homem que ia cada vez mais além das cortinas do véu da ignorância.
É nesse terreno nebuloso de mitos e lendas que opera a criptozoologia. Segundo o dicionário Merriam-Webster, a criptozoologia é definida como "o estudo e busca de animais e especialmente animais lendários geralmente para avaliar a possibilidade de sua existência." O termo "criptozoologia" foi cunhado pelos naturalistas Ivan T. Sanderson e Bernard Heuvelmans, sendo formada pela união de três palavras: kryptós (oculto), zoon (animal) e lógos (estudo ou discussão), o que pode ser melhor definido como "a ciência dos animais ocultos", em suma, uma área das ciências naturais que trata lendas de monstros como relatos de animais comuns ou de espécies que ainda se faltam descobrir.
O objetivo da criptozoologia é tentar estabelecer por meio de análises e relatos similaridades entre criaturas do folclore com animais já conhecidos, como uma espécie de trabalho de detetive, buscando provas, descartando suspeitos até chegar a uma conclusão plausível para lendas obscuras. Foi por meio desse trabalho investigativo que homens da ciência conseguiram desmascarar evidências de monstros como os supostos ossos de dragões ou alegadas partes de monstros marinhos identificando-os como pertencentes à fósseis de grandes animais extintos ou como carcaças de criaturas das profundezas.
Parece uma área ideal para aqueles de mente mais sonhadora, a oportunidade de trazer lendas populares para a luz do método científico, fazendo a transferência de saberes da história para a biologia e usufruir do prestígio de um caçador de monstros moderno a serviço da ciência. Inicialmente a criptozoologia foi desenhada para servir como uma subdisciplina da biologia focada no estudo de animais fantásticos nas lendas e relatos de diferentes culturas ao redor do mundo e usar os dados antropológicos para ajudar na identificação de novos animais ou o papel de animais conhecidos na cultura e mitologia dos diferentes povos. Muito dessa busca foi impulsionada a princípio por Bernard Heuvelmans que ficou conhecido como o "pai da criptozoologia" principalmente pela sua contribuição na divulgação e popularização da mesma graças às publicações de seus livros On the Track of Unknown Animals em 1955 e In the Wake of the Sea Serpents em 1968.
Esse campo de estudo logo chamou atenção pela proposta ousada de mesclar o conhecimento técnico da época - fruto de séculos de avanços científicos e descobertas, com lendas de monstros dos mais diversos tipos em lugares isolados ao redor do mundo. Trazer tais criaturas lendárias para o centro das atenções portava a possibilidade de novas descobertas e novas perspectivas para os monstros das fábulas antigas que agora enfim poderiam fazer parte do nosso mundo físico junto com todos os animais que estavam sendo descobertos. Era fundada assim a criptozoologia, tendo como foco a busca por provas da existência de animais lendários. Em 1983 foi cunhado o termo criptídeo, para se referir a essas criaturas ocultas ou desconhecidas que são o objeto de estudo da criptozoologia, dessa forma, conseguindo um substituto para "animais ocultos" e evitando assim o uso da palavra "monstro" e outros termos considerados sensacionalistas e enganosos.
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Apesar do sucesso crescente e do apelo popular que a criptozoologia reuniu desde a sua criação, tal campo do conhecimento começou a acumular críticas da comunidade científica, dada a inexistência de um corpo de especialistas sólido, visto que parte da comunidade criptozoológica era formada não apenas por cientistas e naturalistas mas também por entusiastas sem formação acadêmica. A ausência de uma abordagem definida foi uma das críticas também levantadas pela comunidade, visto que muitos ditos criptozoólogos sequer usam métodos aceitos, definidos ou uniformes para obtenção de dados com muitos se utilizando de abordagens folclóricas, psicológicas, antiquadas ou mesmo sem qualquer grau de embasamento científico na tentativa de provar a existência de algum criptídeo.
O fato de que a visão que a comunidade científica e que muitas pessoas tinham sobre a criptozoologia estar mais relacionada com o sobrenatural colaborou imensamente para o desprestígio da área frente à áreas ditas mais sérias. Visto que, explicações para a existência de criptídios com base em um elemento sobrenatural não seguem uma abordagem baseada no método científico convencional. E os esforços de muitos ditos criptozoólogos em tentar comprovar a existência dos criptideos mais famosos mas não necessariamente mais plausíveis, invariavelmente acabavam levando a rumos onde os fatos científicos contribuiam para torná-los ainda mais improváveis.
Para tentar remediar esse desprestígio foi proposto separar a área em duas correntes diferentes: A criptozoologia propriamente dita, concebida como um ramo da zoologia, mais comprometida com as normas e premissas do método científico padrão, e outra corrente mais esotérica da criptozoologia que pretendia ser uma "zoologia oculta", despreocupada com animais de carne e osso e padrões de pesquisa mais rigorosos estando mais inclinada para o domínio das pseudociências para explicar a existência de criptídios. Infelizmente poucas tentativas foram feitas para tentar promover essa abordagem mais científica desse campo o que fez com que a interpretação da criptozoologia como uma pseudociência se sobressaísse e se tornasse na interpretação mais comum da área entre o público em geral.
A importância, relevância ou mesmo os seus ditos "sucessos" da criptozoologia também são alvos de críticas. O argumento predominante que justifica a necessidade de um campo de estudo para animais ocultos é o de essa área serviria para investigar fenômenos zoológicos que estão fora do interesse da biologia e assim contribuir para acelerar a conclusão do inventário de biodiversidade do planeta, permitindo que novas espécies que já possam estar ameaçadas de extinção, recebam pronta proteção legal o mais rápido possível. A crítica em cima desse argumento é de que a própria zoologia e suas subdisciplinas já fazem o trabalho de descrever novas espécies, inclusive foram os biólogos os responsáveis pela descrição de criaturas antes consideradas como mitos ou farsas como o dragão de Komodo, o gorila, o ornitorrinco, o ocapi, a lula gigante, muito tempo antes do advento da criptozoologia como um ramo propriamente dito.
Os criptozoólogos por sua vez costumam rebater essas declarações evidenciando que se o método descritivo baseado nos relatos locais tivesse sido aplicado, muitas dessas espécies teriam sido descobertas com décadas de antecedência, como é o caso do panda gigante que só foi descoberto pela zoologia ocidental em 1869, apesar de que as comunidades locais já descrevessem uma criatura similar em seu folclore. Porém, mesmo com o uso do método de pesquisa e análise criptozoológica, os demais criptídeos (diferente do panda) se recusam a aparecer.
Talvez esse seja o maior desafio para a criptozoologia ser levada a sério.
Na última década (2010-2020) vimos um aumento notável nos avanços em tecnologia de registros e informação como câmeras com melhor definição embutidas em celulares cada vez mais potentes e cada dia mais e mais acessíveis. Em 2019 cerca de 5,1 bilhão de pessoas tinham celular. Com tantas câmeras disponíveis, é curioso como criptídeos registrados em países populosos simplesmente deixaram de ser relatados. As desculpas para imagens borradas e vídeos em alta definição de ataques de chupacabras ou um yeti caminhando na neve desapareceram assim como as criaturas que tanto se especularam ser reais.

Inúmeras áreas do conhecimento científico como a zoologia, etnozoologia e zooarqueologia trabalham tanto no aumento do inventário de biodiversidade do planeta como na coleta de informações e relatos dos povos, suas relações com animais e mitologias. Todas essas áreas juntas e separadas fazem o trabalho que a criptozoologia se propõe a fazer, só que de forma bem menos controversa e mais bem reconhecida pela comunidade acadêmica.
Em um mundo cada vez menor, os mitos e lendas começaram a perder o espaço, e com isso, a pergunta que fica é: a criptozoologia ainda tem lugar nesse mundo?
Ainda restam regiões no mundo onde a tecnologia tarda a chegar e onde línguas ainda pronunciam histórias de monstros não como uma história para contar aos filhos, mas como um relato da realidade. Nas comunidades isoladas no interior das selvas ou mesmo no fundo dos oceanos ainda pouco explorados pela ciência, são onipresentes os relatos de criaturas lendárias. Os biólogos caminham rumo ao desconhecido fazendo descobertas nesses horizontes. Talvez a criptozoologia realmente não seja mais útil, mas ainda preserva em sua essência a resposta para os mitos da humanidade, os mitos da natureza e o que há de fantástico na visão que homens ignorantes tiveram das criaturas que os cercam e de um dia quando elas eram apenas monstros.
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