Biosfera das sombras: alienígenas entre nós


Vamos começar com uma pergunta: como são os alienígenas?

Estamos partindo do pressuposto de que vida alienígena não seja apenas especulação mas sim um fato científico, como um alienígena deveria se parecer? O que não falta são cenários dentro da cultura pop imaginando a fisionomia desses seres, desde imagens mais esteriotipadas com homenzinhos cabeçudos de olhos grandes, antenas e pele verde, a até versões onde eles são idênticos aos humanos variando em poucos aspectos. Alienígenas poderiam ser parecidos com máquinas, ou terem corpos feitos de pedra, podem se parecer com criaturas do nosso planeta como polvos, gatos ou insetos, ou podem até serem entidades feitas de pura energia! 

Mas talvez nem precisemos ir tão longe.

A palavra "alienígena" provém do latim e significa "estranho" ou "estrangeiro". Se refere a um ser ou objeto de natureza estranha para nós, com uma origem diferente da nossa. Normalmente usamos essa palavra para nos referirmos a algo que se originou fora do nosso planeta - apesar de não ser regra, algo extraterrestre, cuja origem foge do que convencionamos chamar de normal ou conhecido. 

A vida na Terra tem uma origem comum que nós conhecemos, uma origem que remonta a tempos longínquos. Os registros geológicos mais antigos indicam que a vida na Terra se originou a cerca de 3,5 bilhões de anos atrás, quando o planeta era jovem, coberto por um vasto oceano borbulhante, envolto em ventos e ares hostis, diferente da atmosfera agradável que estamos acostumados. Foi nesse cenário insalubre, que a sopa primordial acumulada sob as águas estéreis começou a ser catalisada pelas reações químicas que deram origem às primeiras células e aos compostos precursores dos ácidos nucléicos que são a chave para a transmissão e perpetuação de informação genética que define a vida em todas as suas cores, tamanhos e formas.

Toda a vida na Terra desde então segue o mesmo padrão de informação: o código genético, um produto das informações contidas nos ácidos nucleicos, sendo a molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico), o ácido nucleico padrão para a vida da Terra.

Mas voltando à pergunta inicial sobre como são os alienígenas, devemos considerar um fator importante: diversidade. O universo tem bilhões de estrelas e trilhões de planetas, nenhum deles sendo igual ao outro. Não existe nenhum planeta igual à Terra, seja na localização, composição, tamanho, temperatura, idade ou qualquer outro aspecto imaginável. É justo buscar por vida alienígena esperando que essa vida seja parecida com a nossa? A graça de ter um universo tão vasto quanto o nosso é que as possibilidades para o que vamos encontrar vivendo nele são infinitas. Então seria quase certo afirmar que dentre todas essas possibilidades infinitas de vida, a chance de uma delas ser igual a vida conhecida na Terra é tão improvável quanto possível.

Mas também não precisamos ir tão longe para encontrar alienígenas... Se vasculhar o universo inteiro não for uma opção viável, um bom lugar para começar nossa busca seria aqui mesmo na Terra.

Os processos bioquímicos na Terra primitiva ainda são relativamente pouco explorados, mas é sabido que dentro das condições ambientais hostis do período a bioquímica por trás do desenvolvimento dos componentes da vida orgânica foi ideal. Os componentes químicos que fazem parte da composição dos seres vivos e de suas moléculas eram abundantes na Terra primitiva. Mas, considerando um planeta tão grande e diverso quanto a Terra seria curioso se a vida surgisse em apenas um lugar. Ninguém sabe dizer onde a vida de fato surgiu pela primeira vez, mas não é impossível que ela tenha surgido em mais de um lugar no planeta, talvez duas vidas tenham nascido em dois ou mais lugares do mundo sendo portanto variações de um mesmo fenômeno.

Essa variante hipotética poderia ser o pilar da origem de uma ou mais formas de vida alternativas que poderiam ter coexistido com a nossa própria árvore da vida. Poderia o planeta ter abrigado duas origens da vida distintas? Esse é o postulado da hipótese da biosfera das sombras.


A biosfera das sombras, biosfera oculta ou biosfera sombria é uma biosfera que usaria processos bioquímicos e moleculares essencialmente diferentes daqueles da vida conhecida por nós atualmente. A hipótese de que em algum momento durante o estabelecimento das primeiras formas de vida, a Terra abrigou múltiplas origens diferentes da vida. Essas formas de vida alternativas, também chamadas de "vida estranha" poderiam ter coexistido com nossos primeiros ancestrais, terem sido extintas ou ainda terem sido assimiladas ou fundidas com eles passando a fazer parte da vida como a conhecemos. Para ser de fato uma biosfera sombria, as formas de vida nela presentes devem ser diferentes em algum ponto da vida comum, seja no material genético ou na composição química, algo que sugira uma origem distinta de ambas as biosferas.

As implicações de uma biosfera sombria são animadoras para aqueles que buscam vida alienígena. Se uma biosfera sombria fosse encontrada, forneceria evidências de que a vida não foi um acidente estatístico que ocorre apenas uma vez no universo. Se a origem da vida pode acontecer duas vezes no mesmo planeta, deve ter acontecido inúmeras vezes mais em vários outros mundos. 

 

Mas como achar a vida estranha? 

Existem algumas possibilidades que podem explicar onde está a vida estranha e porque ainda não a encontramos. A primeira possibilidade é a de que essas formas de vida prosperam em ambientes onde outros seres vivos não conseguem tolerar viver, em lugares onde normalmente não procuramos pela vida. Lugares hostis como o interior de vulcões, próximo ou dentro do manto terrestre, na alta atmosfera, em locais com altas concentrações de sal, ácidos, radiação ou sem oxigênio são ótimas apostas para começar a procurar pela vida estranha. Em ambientes com condições extremas de temperatura, pressão, radiação e oxigênio costumam ser estéreis, e por assim serem proporcionam uma grande variedade de nichos que podem ser ocupados tranquilamente por organismos pioneiros quase sem haver competição com os organismos da vida comum... quase.

Recentemente, os locais inóspitos que antes se acreditava serem estéreis abrigam várias formas de vida únicas: os extremófilos. Os extremófilos são organismos como arqueias e bactérias que desenvolveram adaptações que lhes permitem prosperar nas condições adversas desses ecossistemas. O exemplo mais notável são os das arqueias antes mencionadas, que são organismos unicelulares que apesar de serem muitas vezes confundidas com bactérias constituem um reino separado, esses seres podem ser encontrados em todo tipo de ambiente, até dentro do trato digestivo dos animais (você inclusive deve ter milhares de arqueias vivendo no seu intestino). Elas inclusive podem ser classificadas de acordo com o ambiente onde vivem, como as halófilas extremas que vivem em lagos extremamente salgados como as que existem nas águas do Mar Morto, as metanogênicas que vivem em ambientes com pouco ou nenhum oxigênio e as termófilas extremas que vivem principalmente em fontes termais onde a temperatura pode exceder facilmente os 100 graus celsius! 

Apesar de sua natureza surpreendente, até onde se sabe sobre o genoma e a estrutura desses organismos, elas não fazem parte da biosfera sombria que procuramos, visto que elas são uma das formas da "vida comum" que compartilham uma mesma origem dentro da nossa árvore da vida junto das bactérias e dos eucariontes. 



Outra possibilidade para encontrar a vida estranha é um pouco mais sinistra, e parte da premissa de que ela está bem ao nosso redor em todos os lugares. Em suma, essa hipótese prediz que esses organismos podem ser constituídos por uma composição bioquímica diferente que não é detectada pelos equipamentos dos cientistas, algo que não seja capaz de despertar a suspeita de que se trate dos componentes de uma forma de vida. Existem alguns cientistas que defendem que outras formas de vida poderiam conter silício em vez de carbono ou arsênio no lugar do fosfato, que é um componente importante na constituição dos ácidos nucléicos (DNA e RNA). 

Uma teoria recente ganhou força após a descoberta de moléculas de RNA (ácido ribonucléico) com capacidade auto-catalítica, ou seja, uma substância que desempenha os papéis de ácido nucleico e enzima ao mesmo tempo, essas moléculas foram chamadas de ribozimas, e uma das hipóteses para a origem da vida sugerem que a primeira molécula de informação genética não foi o DNA, mas sim uma ribozima, apesar de atualmente não ser conhecido nenhum ser vivo cujo genoma seja baseado nessa substância no lugar do DNA. Se um dia existiu alguma forma de vida com o genoma baseado em ribozimas essa vida pode ter sido extinta ou assimilada pelos "seres vivos de DNA" ou ainda existir porém muito bem escondida.

É possível que organismos de uma biosfera sombria também façam parte da chamada matéria escura biológica, que nada mais é do que amostras que contém material genético não categorizado e portanto desconhecido. Um conjunto de genes e genomas inteiros cuja origem e procedência são completamente ocultos. Muitas das amostras de substrato apresentam como parte do material genético constituinte uma parte de material genético desconhecido que é incompatível com os três domínios da vida (archaea, bacteria e eukaryota) o que pode sugerir um novo domínio da vida conhecida ou mesmo até o indício de uma biosfera nova a ser explorada. 


Possibilidades mais pessimistas sugerem que a vida estranha - se ela de fato existiu, não existe mais. Uma hipótese é a de que ela tenha sido assimilada por outros organismos maiores ou mais complexos num fenômeno chamado endossimbiose como foi o caso de algumas organelas nas células de animais e plantas como as mitocôndrias e plastos que outrora no passado já foram organismos independentes mas que agora são apenas uma parte do maquinário celular de organismos superiores. Talvez a vida estranha tenha sido extinta pela competição com as formas de vida emergentes da Terra ou terem sido dizimadas durante algum dos vários eventos de extinção global que nosso planeta já passou em sua história, e talvez nem sequer tenham deixado vestígios de sua passagem pela Terra, ou deixaram e ainda não aprendemos a procurar.

A premissa da existência de seres estranhos dividindo o mesmo mundo que o nosso é fascinante, ainda mais a possibilidade destes seres alienígenas estarem vivendo, crescendo e se reproduzindo agora bem debaixo dos nossos narizes, à vista de todos e ao mesmo tempo ocultos da ciência. A biosfera sombria nos faz refletir o quanto ainda desconhecemos do nosso próprio mundo e o quanto ainda há para ser descoberto. Talvez o primeiro passo para encontrar vida fora da Terra já esteja sendo dado aqui na Terra, afinal os alienígenas não precisam necessariamente ter vindo de fora, podem estar muito bem neste planeta, sendo algo que foge à nossa compreensão, algo estranho à vida como um todo. 

Alienígenas entre nós.



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